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Caminhos

crónica
Por Madalena Out 19 2009

Atraso os passos porque já sei o que vou encontrar. Não me lembro uma única vez durante o dia mas as imagens surgem-me como flashes quando se aproxima o momento em que lá tenho que passar. Já fiz inúmeras tentativas de desviar caminho, mas tornar-se-ia demasiado extenso e fico depois com um gosto amargo na boca, pois fico a pensar se estaria com alguém ou não. A janela está sempre aberta. Sei que faz de propósito. O rés-do-chão convida os olhares distraídos mas os ouvidos atentos a desviar a atenção para aquela divisão da casa, a única que dá para a rua empedrada. Tem sempre companhia. Deduzo que nem sempre seja a mesma, pois os gemidos por vezes são guinchos ou até gritos, enquanto a sua voz quase muda se afunda nos tecidos. Todos sabem que faz aquilo por prazer mas ninguém sabe se lhe pagam ou não. Mulher farta, de vida desafogada, nunca ninguém lhe conheceu profissão ou afazer. Cruza a praça principal da cidade e todos param para a ver passar. As coxas fartas e o cabelo negro seduzem todos os que por ali param. Muitos há que ali vão com a desculpa do café ou jornal, para apenas a ver passar. Tem sempre um meio sorriso no rosto. Astuta coloca um perfume suave na pele deixando um rasto que eleva os pescoços que por ela se cruzam. A casa cheira sempre a incenso. Por vezes até agonia a intensidade daqueles aromas. Não consigo não passar pela sua porta. Podia até fazê-lo mas não consigo. Não olho, mas ouço os gemidos. Às vezes ouço gargalhadas e risadas, ou o trautear de uma melodia. Um dia olhei. Não resisti e olhei. Fiquei parada. As suas coxas fartas ladeavam-lhe o corpo. Ele, completamente extasiado, perpetrava movimentos cordatos mas profundos que impunham um ritmo ofegante ao corpo daquela bela mulher. Ela falava. A sua voz ordenava-lhe os movimentos. Ele cumpria escrupulosamente todas as suas ordens. As pernas abriam-se completamente esticadas. Ele segurava-as pelo interior dos joelhos e empurrava com firmeza. A sua nuca caída e cabelos pendurados deixavam transparecer as veias no pescoço. Abriu os olhos e viu-me. Por momentos até me pareceu que me enviava um beijo. Foi apenas impressão minha. Abandonei o cenário. Deixei-os lá para trás e dirigi-me ao meu destino. Esperavam-me onde o prazer tem sempre o mesmo rosto.

Madalena Palma

Foto: A. Libidova


1 Comentário para “Caminhos”


  1. Dizem que todo prazer tem gosto de pecado e por isso mesmo, feitos em pecado, não conseguimos fugir dele. Mesmo que tenha sempre o mesmo rosto…


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1 Comentário